REPORTAGEM -
Braga cumpre recolhimento, triste, inquieta e revoltada

Nas conversas de circunstância, nas circunstâncias de que se fazem os pequenos nadas do quotidiano, Braga mostra a face fatigada. Cumpre o recolher obrigatório com a uma revolta calada, de destinatário incerto.

Do jornalista que assina estas linhas à produtora de vinho alvarinho, obrigada pela filha e nora (médica e enfermeira no hospital bracarense), a passar o confinamento da Primavera em Monção, o desgaste provocado pela pandemia covid-19 sente-se.

Ao fim de sete meses, a viticultora regressou a Braga, agora que o frio começa a fazer-se sentir na vila raiana, e solidão já pesa.

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Não acredita que a pandemia “acabe nos próximos meses”. Só lhe resta seguir o conselho dado pela nora: “se te protegeres, proteges os outros”.

Leva o conselho a sério por que não acredita que o recolhimento obrigatório “resolva o que quer que seja”. “A juventude não vai, nem pode cumprir”. Muitos acreditam no mesmo.

Sexta-feira, 23h30, 13 de Novembro.

 

Desde a segunda-feira anterior que Braga vive pela primeira vez um recolhimento obrigatório. No pós-25 Abril, só a Região Militar de Lisboa foi obrigada a obedecer a ordem idêntica, faz no dia 25 deste mês 45 anos. A confrontação entre os militares de esquerda e ‘moderados’ do Grupo dos Nove levaram o Presidente da República, Costa Gomes, a decretar o Estado de Sítio. Acabaria 2 de Dezembro.

Na avenida Central, um casal de jovens que ensaia os primeiros passos na arte do namoro, desconhece aquele momento que marcou a história nacional.

Despreocupada, sem máscara, ela está “surpreendida” por ver “as ruas tão desertas”. “Julgava que mais gente saísse mesmo com o recolhimento [obrigatório]”, confessa.

Ele, também sem máscara, assegura “que a Polícia não anda por aí. Ainda não a vimos”.

Despendem-se com um “tenha cuidado”. Não há qualquer ironia nesta despedida.

Um outro casal conversa junto ao Edifício do Castelo, um outro namora no largo das Carvalheira. Trabalhadores da restauração regressam a casa. Vários estafetas de entregas de refeições passam apressados em ruas, aparentemente mais escuras.

Ninguém à porta da farmácia de serviço.

À excepção de um carro-patrulha que circula lentamente por uma área de prostituição nas proximidades do maior shopping de Braga, não se vê a Polícia, nem a GNR nas principais saídas da cidade.

Um táxi dormita na ‘praça’ da Arcada.

“JUVENTUDE RASCA”

Horas antes, a produtora de vinhos confidenciava que se sente “mais deprimida e cansada a cada dia que passa”.

“Em Monção, até ao início do Outono, podia passear por entre o arvoredo e ocupar-me na quinta. Isso ajudava”, conta.

De volta à cidade, a monçanense (que não quer ser identificada), confessa estar com “muito medo”, “por mim, pela minha filha e pela minha nora”, que, como profissionais da saúde, estão na linha da frente no combate à covid-19.

“Agora sinto-me muito mais intranquila e dessossegada”, exterioriza. “E triste”.

Está convicta que os ajuntamentos da juventude farão aumentar o número de contágios em contexto familiar e não acredita que se verifique qualquer abrandamento na taxa de infecção no Norte do país.

Os últimos números da autoridade de saúde de Braga não a tranquilizam. Nas 48 hora anteriores, o concelho registou mais 404 novos casos de infecção, outra morte, subindo para 81 o total de óbitos, 4.722 casos de doença desde o início da pandemia.

Para Patrícia Santos, natural de Torres Novas, há cerca de um ano a residir em Braga, a obrigatoriedade de recolher não a incomoda. “Já estou habituada a estar em casa. Já não é tão difícil”, diz, mas desconfia que os mais novos “não vão aguentar”.

Concorda com a viticultora quando diz que os “os jovens precisam se sair”, o que “acontecerá com mais evidência” no segundo fim-de-semana.

“Acho que a polícia vai mandar muito jovens para casa, jovens em quem os pais não conseguem ter mão”, preconiza.

Também Valetin, búlgaro natural de Plovdvin, cidade onde Iuri Leitão, de Viana do Castelo, se sagrou Campeão Europeu em ciclismo de pista, diz que “a juventude vai cumprir nos primeiros dias, mas depois não”.

“Vão começar a ir a festas para casa uns dos outros, como já estão a fazer”, acrescenta o pintor da construção civil que no seu país tinha uma empresa de comercialização de vegetais e fruta.

A residir há 19 anos em Braga, Valentin acredita que “a única coisa a fazer é ter cuidado”. Acredita ainda que o SARS-CoV-2 foi “criado” e “plantado” propositadamente para o “limpar o Mundo dos mais velhos e doentes”. Tem 48 anos mas admite que está “inquieto”.

Desislava, a filha de 15 anos, não acredita na teoria do pai. Boa aluna, boas notas, acha que “pode haver jovens que fujam ao recolhimento obrigatório, mas não a maioria”.

Aluna do 9.º ano da Escola André Soares, a jovem, herdeira do rigor e disciplina dos pais, diz-se “psicologicamente preparada” para “qualquer aumento de restrições”. Recorda que aguentou bem as aulas não-presenciais.

Rafaela, um ano mais velha, 10.º ano da Secundária Sá de Miranda, discordaria da companheira luso-búlgara. “Na próxima quarta-feira à noite vou com alguns colegas para uma casa na Morreira [freguesia de Braga]. Levamos alguma coisa para comer e beber e passamos lá a noite”.

“A minha mãe sabe e deixa. Prefere saber por onde ando”, assegura. “Que desculpa os outros vão arranjar? Não sei, nem me interessa”.

Paulo Oliveira, da Papelaria Nany, é radical na forma como avalia o comportamento dos jovens durante a pandemia.

“Vão ‘furar’ o recolhimento obrigatório à primeira oportunidade e a qualquer outra medida de restrição que seja imposta”, afirma categórico.

“Temos uma juventude rasca”, atira.

O irmão, António, também não acredita num “comportamento exemplar” dos mais novos, mas não é tão extremista.

“Não digo que é a generalidade. Todos sabem que uma boa parte dos jovens continua a juntar-se e fazer festas, não em locais isolados, mas em casas particulares. Sempre o fizeram”, diz, lamentando que a covid-19 impeça o contacto “mais próximo com os clientes e amigos”.

“Estamos cansados deste distanciamento, desta pandemia, dos números da covid, das curvas, dos políticos, das tretas dos comentadores que agora parecem médicos, das fake news, de epidemiologistas”, disparam.

A esta “fauna”, o cliente Rafael Ferreira, engenheiro da área das Tecnologias da Informação, junta “os especialistas de curso tirado por correspondência”.

José Gutierrez, 29 anos, a viver em Braga há um ano e meio, oriundo de Valencia, Espanha, acredita que os ajuntamentos de jovens “vão continuar, não na rua” mesmo num eventual regresso ao confinamento.

“Passam a encontrar-se em casa de outros”, sublinha. Acredita que se via a assistir “a muitas destas reuniões, mesmo com o recolhimento obrigatório”.

O psicólogo sabe que “é difícil ficar em casa”. E compreende os jovens: “precisam de descontrair, sobretudo os que trabalham. Têm necessidade de se distrair, de conviver”.

“PENSAMENTOS SOMBRIOS”

Na primeira vaga, recorda o espanhol, “sentia bastante medo. E os números de infectados e de óbitos não estavam tão elevados como agora…”.

“Essa preocupação aumentava com a falta de conhecimento que havia sobre o novo coronavírus e com muita informação contraditória”, conta.

E, “obviamente”, “a televisão só falar da covid-19 e da pandemia não ajudava nada. Não poder trabalhar ainda piorava”.

“Confinado, sem trabalhar, abriram-se espaços para pensamentos mais obscuros, mais sombrios. Pensava muito como seria quando recomeçasse a minha actividade, ou e se teria contacto com alguém doente, por exemplo. Não foi um período fácil”, reconhece.

“Curiosamente, com o regresso à actividade tranquilizei-me um pouco. Estar ocupado abrandou a preocupação, fechou esse espaço a reflexões com o seu quê de sombrio”, explica.

Para Patrícia Santos, 31 anos, também o confinamento de Março “não foi fácil”.

A trabalhar na ‘Doce Portuguesa’, um projecto “entusiasmante” de pastelaria que abriu porta precisamente um mês antes da entrada em vigor do estado de emergência primaveril – “acertámos em cheio”… – viu-se temporariamente desempregada e em casa com duas crianças. Comprou uma máquina de café e só saía em caso de necessidade.

“Sentia-me numa prisão que me deixava sair à rua”, conta junto ao balcão da pastelaria, que, entretanto, reabriu.

O agravamento da situação agravou o sentimento de impotência, a incerteza quanto ao futuro. Só espera que o Estado “dê mais apoio à restauração”.

Como muitos outros trabalhadores do sector, Patrícia deseja que a crise pandémica seja ultrapassada rapidamente, que “o pesadelo acabe”.

“A restauração atravessa um período muito difícil”, lembra, dizendo-se solidária com os protestos dos trabalhadores e empresários, mas não aceita as “cenas tristes que se viram no Porto” durante o protesto da avenida dos Aliados.

O BENEFÍCIO DA COVID-19

Apesar do drama, José Gutierrez encontra na covid-19 um “efeito colateral benéfico”.

“A pandemia veio fazer lembrar-nos a importância do trato social, dos relacionamentos familiares e de amizade”, diz.

“As relações estavam a tornar-se muito superficiais, muito distantes socialmente, como se não houvesse necessidade de nos encontrar presencialmente, cara a cara. Era eu aqui você aí, numa mesa de café, de olhar no telemóvel, nas redes sociais. Com a covid-19, uma doença que não permite a proximidade física, começou-se a perceber a falta que faz esse trato e essa presença”, afirma.

“Agora que não temos escolha, agora que temos de evitar os contactos de proximidade, começamos a sentir a falta desse trato, a necessidade de telefonar a um pai, a uma avó, a um amigo, a perceber a falta que nos fazem”, continua.

“Na verdade, estávamos distanciados sem ter necessidade”, lamenta.

O jovem psicólogo quer acreditar que as pessoas não esquecerão esta lição.

“Mas o ser humano é mestre no esquecimento. Não sei se nos vamos lembrar disto no futuro”, refere.

A uma centena de metros do apartamento onde vive, algo parece mostrar que Gutierrez pode ser um pessimista.

Alberto Fernandes Pinto e a mulher, ambos na casa dos 70, estão contaminados por covid-19, ao que tudo indica devido a contacto com familiares doentes assitomáticos.

Apreciador de uma boa conversa, Alberto passa todas as manhãs algum tempo à janela na conversa com amigos e vizinhos, que diariamente lhe entregam o que precisa, de bolachas à garrafa de vinho, que a doença não se cura só com medicamentos…

Se esta imagem –igual a tantas outras que se repetem pela cidade – dá algum alento em tempos de pandemia, não é por si só suficiente para apagar a memória de todos os empobreceram, perderam o trabalho, adoeceram e morreram em total solidão ou às mãos de um vírus maquiavélico que a natureza produziu.

Por toda a cidade, há, mesmo que disfarçado, muito desespero, sobretudo naqueles que têm familiares mais velhos; há em todo o lado alguém com o coração nas mãos e luto na alma.

Entre esses ‘alguém’ está um engenheiro que há dias perdeu o pai, um homem de 86 anos cheio de energia, e que agora manda “pró caralho”, entre outros volumosos e sonoros impropérios bem à moda do Minho, este “ano 2020 para esquecer”.