Desde o início do ano, mais de 15 mil famílias já pediram ajuda à Deco por sobre-endividamento. A maioria dos casos referem-se a prestações/rendas das casas e alimentação, avança o relatório da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor.
«O número mantém-se estável face a igual período do ano passado, mas tem-se mantido em níveis bastante elevados nos últimos anos», refere Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira (GAF) da associação.
O problema agrava-se com a escalada do custo de vida, que está a forçar muitas famílias a recorrer a empréstimos pessoais e cartões de crédito apenas para garantir despesas básicas como alimentação e habitação.
A Deco alerta para uma tendência crescente de pedidos de ajuda por parte de famílias em que todos os membros estão empregados a tempo inteiro, mas que mesmo assim não conseguem fazer face às despesas mensais.
«É nestes dois pilares – habitação e alimentação – que recai maior pressão”, explicou Natália Nunes ao Diário de Notícias (DN).
CUSTO DE VIDA
A responsável sublinha que, ao contrário de anos anteriores, em que as causas do sobre-endividamento estavam muitas vezes relacionadas com eventos inesperados como desemprego, doença ou divórcio, atualmente o principal fator é o aumento sustentado dos custos de vida.
A subida dos preços no arrendamento está também a transformar o perfil de quem recorre a crédito. «Estamos a receber cada vez mais pedidos relacionados com arrendamento. As pessoas já não recorrem apenas ao crédito para comprar casa, mas também para conseguir pagar uma renda ou cobrir cauções», afirmou a coordenadora do GAF.
Em média, cada uma das famílias apoiadas tem seis créditos diferentes em simultâneo. A maioria dos casos diz respeito a pessoas com idades entre os 40 e os 50 anos, sendo que 27% dos sobre-endividados acompanhados pela Deco são reformados.
JOVENS CADA VEZ MAIS AFETADOS
O fenómeno do endividamento jovem está igualmente a ganhar relevo, impulsionado pela entrada no mercado do crédito à habitação através da nova garantia pública, destinada a mutuários com menos de 35 anos.
A Deco tem notado «um aumento significativo de pedidos de aconselhamento» por parte desta faixa etária, o que não era comum em anos anteriores.
Apesar disso, Natália Nunes destaca a atitude responsável dos jovens neste processo: «Estão mais conscientes de que estão a assumir um compromisso a longo prazo e procuram-nos antes de avançar com os contratos».
Ainda não há registo de incumprimentos por parte dos jovens que recorreram à garantia pública, mas a Deco avisa que esta medida beneficia sobretudo os que têm rendimentos mais elevados.
CRÉDITO À HABITAÇÃO
O Banco de Portugal confirmou recentemente que a procura por crédito à habitação voltou a aumentar no segundo trimestre de 2025, em particular devido ao novo enquadramento fiscal e regulamentar do mercado imobiliário.
No mais recente Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito, o regulador identificou a garantia pública, bem como a redução das taxas de juro e um maior nível de confiança dos consumidores, como os principais fatores a justificar o crescimento do recurso ao crédito por parte das famílias.












