Texto de Hélder Araújo Neto (Psicólogo Clínico)
Sei que já escrevi, neste espaço, um artigo acerca das adições, mas pretendo escrever, especificamente, sobre o álcool, porque me cruzei com um antigo ditado irlandês que diz: “First the man takes the drink, then the drink takes the man.” Em tradução livre é algo como “primeiro o homem toma o copo, depois o copo toma o homem”. A sabedoria popular raramente se engana, e, neste caso, resume em poucas palavras a tragédia silenciosa que o álcool representa. Primeiro é o prazer, o convívio, o brinde; depois, quase impercetivelmente, o copo ganha vontade própria. E quando o homem já não domina a bebida, é a bebida que o domina a ele.
O alcoolismo é, em Portugal, e no mundo, uma doença grave, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, e, não, uma simples falta de vontade. Instala-se devagar, em etapas discretas, confundindo-se com hábitos culturais e sociais. O próprio ditador português, António de Oliveira Salazar, incitava o povo português a beber vinho. Um copo de vinho ao jantar, uma cerveja ao fim do dia, um “shot” nas festas, um brandy para “a digestão”. Pouco a pouco, o prazer transforma-se em necessidade, e a necessidade em dependência. E quando o álcool passa a ser o centro da rotina, a vida começa a girar em torno do vício.
Segundo dados recentes, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), cerca de 10% da população portuguesa tem consumos problemáticos de álcool. Portugal é, de resto, um dos países da União Europeia com maior consumo per capita. Somos uma nação de vinho, de aguardente, de licor, de brinde e de tasca, e esse património cultural, embora profundamente enraizado, tem também um preço alto.
O grau de severidade do alcoolismo é devastador. Afeta o fígado, o coração, o sistema nervoso, a memória, e corrói lentamente a vida social e familiar. O dependente perde o trabalho, afasta os amigos, destrói os laços afetivos. E, ao contrário de outras adições, o álcool é uma droga legal, barata e socialmente aceite, o que torna o combate ainda mais difícil. Como lutar contra algo que é parte das celebrações, das romarias, dos casamentos e até dos funerais?
Sair do alcoolismo é, para muitos, uma tarefa hercúlea. O corpo grita pela substância, a mente arranja desculpas, e a sociedade, muitas vezes, não ajuda. Há vergonha, há estigma, há o medo de admitir fraqueza. O primeiro passo, reconhecer a dependência, é o mais difícil de todos. E, mesmo com acompanhamento médico, psicoterapia e grupos de apoio, como os Alcoólicos Anónimos, a recaída é uma sombra constante. A abstinência exige disciplina, mas, sobretudo, exige uma rede de apoio que, infelizmente, muitos não têm.
A dimensão humana desta doença é cruel. Todos os anos, milhares de portugueses morrem direta ou indiretamente por causa do álcool, seja por cirrose, acidentes de viação, violência ou suicídio. A cada uma dessas mortes, correspondem histórias de famílias destruídas e vidas suspensas. O álcool mata devagar, mas também mata de repente.
E há ainda as vítimas colaterais: aquelas que não bebem, mas sofrem as consequências. O álcool está presente em grande parte dos casos de violência doméstica em Portugal. A agressividade desinibida, o descontrolo emocional e a perda de autocensura são catalisadores trágicos em muitos lares. Mulheres, crianças e idosos tornam-se vítimas de um inimigo invisível que entra em casa pela garrafa. A cada denúncia de agressão, há muitas outras que ficam no silêncio, um silêncio regado a álcool.
Mas seria injusto falar apenas do lado sombrio sem reconhecer o papel cultural do vinho e da bebida em Portugal. O vinho faz parte da nossa identidade, da nossa economia, da nossa mesa. Há quem diga, com humor, que muitas pessoas neste país nasceram por causa do álcool, e talvez não estejam errados. Quantos romances, confissões e beijos roubados não terão começado depois de um copo a mais? É o lado leve da tragédia: o álcool, com toda a sua dualidade, é também o combustível da convivência, o lubrificante social que aproxima e solta.
Contudo, a fronteira entre o brinde e a dependência é frágil. O que começa como celebração pode acabar em ruína. A linha é tão fina que, muitas vezes, só se nota quando já é tarde de mais. O ditado irlandês, que no início parecia uma anedota, acaba por ser um epitáfio moral: primeiro o homem toma o copo, depois o copo toma o homem.
Talvez o segredo esteja em reaprender o que significa brindar. Brindar à vida, sim, mas com consciência. Brindar à alegria, não à fuga. Brindar em equilíbrio, sem esquecer que, por trás de cada garrafa, há histórias de perda e de superação. E que o verdadeiro espírito português não está no fundo do copo, mas na força de quem consegue pousá-lo antes que ele o derrube. Se o caro leitor, ou alguém próximo, estiver a lidar com este problema, peça ajuda. Ela existe, desde o CRI (Centro de Respostas Integradas), unidades de alcoologia do Serviço Nacional de Saúde, Alcoólicos Anónimos, até aos hospitais privados.











