A importância de continuar em cada dia a construir a democracia, uma tarefa que está sempre inacabada, foi uma das notas dominantes nos discursos protocolares das comemorações dos 52 anos da revolução de 25 de Abril, este sábado, em Amares.
Na Assembleia Municipal comemorativa, o primeiro discurso coube ao Chega, com José Manuel Queirós a salientar que o dia 25 de abril de 1974 “abriu caminho à liberdade” e que é uma data que “pertence a todos os portugueses”. “Celebrar abril também é reconhecer que a democracia precisa de ser construída todos os dias”, sublinhou.

José Manuel Queirós disse, no entanto, que “não se pode celebrar abril sem mencionar novembro”, aludindo à intentona militar de 25 de novembro de 1975, que pôs fim ao Processo Revolucionário em Curso (PREC).
“Em novembro de 1975, Portugal escolheu verdadeiramente a democracia”, apontou o representante do Chega, que sublinhou a importância de os decisores políticos de hoje “ouvirem as pessoas” para poderem responder aos seus anseios.
Para Márcia Macedo, do movimento Amar e Servir Amares, o 25 de abril é a “data maior” da história portuguesa, tratando-se de uma “rutura fundacional, um ato de soberania absoluto”, que permitiu fazer “nascer um país novo”. “Não apagou as diferenças, mas mostrou que há momentos na história em que se exige responsabilidade”, salientou.

A líder da bancada do Amar e Servir Amares fez depois um paralelismo com os tempos atuais, num mundo de “profunda crispação e desgaste das instituições”, em que “as mulheres estão a perder liberdades essenciais”. “Como se tornou difícil outra vez ser mulher. Podemos dar a liberdade como garantida?”, questionou.
Márcia Macedo vincou também que a “política local não é um campo de batalha ideológico, mas um espaço de serviço público”, na procura de um concelho com melhores condições, sublinhando que a diversidade, nomeadamente de forças políticas, “não equivale a divisões”.
Essas foram também ideias defendidas por Manuel Sousa Pereira, do movimento Renascer Amares, para quem os valores de abril, como a igualdade, a liberdade e a justiça social, “têm de ser trabalhados diariamente”. Frisou, no entanto, a importância da responsabilidade, porque “liberdade sem responsabilidade é libertinagem”.

“O futuro é feito hoje”, enfatizou Manuel Sousa Pereira, que pediu que cada um possa dar o seu contributo para que o concelho de Amares e o país, em geral, cresçam de forma “justa e equilibrada”.
“Que nunca percamos a capacidade de sonhar, de lutar e empreender, com os valores do respeito, da liberdade e da equidade. Que estas não sejam só palavras, mas fundamentalmente sejam ação”, concluiu o representante do Renascer Amares.
Já o PS, pela voz de Francisco Macedo, considerou que existem atualmente “dois grandes desafios”, nomeadamente “recuperar a confiança das pessoas nas instituições democráticas e renovar o compromisso social” para que “ninguém fique para trás”.

À semelhança dos outros membros da assembleia, salientou que “a democracia não é um bem adquirido” e que, pelo contrário, é um bem “vulnerável e frágil”, que precisa de ser constantemente construído e defendido.
“Não há nem nunca houve um Portugal perfeito”, considerou Francisco Macedo, para quem a construção de uma sociedade melhor assenta nos valores da revolução, que em 1974 fez o país “emergir da noite e do silêncio”.
A fechar o ciclo de intervenções das forças políticas, Mário Paula, do PSD, lembrou o momento em que, há 52 anos, o “povo português uniu-se para se livrar do jugo pesado da ditadura”, mas considerou que “celebrar abril é sobretudo olhar em frente”. “O espírito de abril não se esgota apenas na liberdade de escolher. A política tem de fazer a diferença na vida das pessoas”, garantiu.

Para Mário Paula, “a liberdade não é negociável”, mas a democracia “não é um dado adquirido”. “É uma construção permanente”, vincou, sublinhando que o novo ciclo político em Amares, iniciado nas autárquicas de outubro, assume um “compromisso renovado” com essa premissa.
VALORIZAÇÃO DO PODER LOCAL
O presidente da Câmara de Amares, Emanuel Magalhães, aproveitou o discurso para destacar a importância do poder local e apelou a que a liberdade não seja utilizada para “dizer tudo o que apetece”, tendo em conta a criação de “perceções perigosas”.
“Hoje, um autarca que faça um ajuste direto é visto, não raras vezes, como um criminoso, um irresponsável. Não pode ser assim. Há momentos em que a salvaguarda do interesse público obriga a determinadas decisões que são muitas vezes percecionadas como irresponsáveis, de forma errada, muitas vezes maldosa”, apontou o autarca.
Emanuel Magalhães partilhou também a ideia de que as conquistas de abril não devem ser dadas como garantidas, precisando de ser defendidas em cada dia. “O 25 de abril está nas escolhas que fazemos todos os dias”, frisou.

Na mesma linha, o presidente da Assembleia Municipal, José Manuel Almeida, considerou que o dia da revolução “não é apenas uma memória, mas um fundamento” daquilo que é hoje o país. “Marcou um tempo novo, de recomeço coletivo, em que o país se levantou da sombra para a luz”, destacou.
José Manuel Almeida considerou que nos tempos atuais, marcados por “populismo, afastamento cívico e desinformação”, a revolução dos cravos “continua a interpelar-nos”. “Não somos apenas os herdeiros de abril, mas os seus continuadores”, salientou.



















