OPINIÃO - -
Economia Circular – não estraguem tudo, pá!

É quase inspiradora a citação do famoso e controverso escritor do séc. XIX, Oscar Wilde, quando pressagiava que o tempo permitia a realização de utopias. Infelizmente, comunicação e criação de verdades estão, nos dias de hoje, cada vez mais de mãos dadas e a utopia é vendida ao desbarato sem pudor nem constrangimento.

O tema Economia Circular merece esta reflexão, na medida em que se tornou célebre – e até sexy – usar o conceito para merecer atenção e aplauso. Temo que não tarde muito para que esta interessante concepção se torne banal e descredibilizada, por entre as festas e as feiras.

Quando falamos de Economia Circular, do que estamos a falar? É sabido que o mérito desta corrente emerge de um problema global. A crescente escassez dos recursos naturais no mundo, o aumento dos índices de poluição nos rios e nos mares, dos resíduos que se acumulam nos aterros sanitários, não são mais do que fruto do modelo económico linear, que não cuida dos limites ambientais do planeta. Ou seja, tudo é produzido a partir das matérias primas, para ser consumido rapidamente e jogado no lixo.

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Nos dias de hoje quase tudo o que é extraído da natureza acaba transformado em lixo e é continuamente substituído por mais produção, com cada vez menos sustentabilidade e possibilidade dos ecossistemas recuperarem o seu equilíbrio.

Mas não terá a natureza do planeta outro sentido? Desde criança que oiço: “na natureza, nada se perde, tudo se transforma”. Na verdade, o que nasce, depois de morrer transforma-se em energia devolvida ao ambiente. Então como ficamos?

O que a Economia Circular propõe é deveras desafiante. O conceito desafia quem produz a projetar mais do que um ciclo de vida para os seus produtos, por forma a que estes reentrem na cadeia de valor depois de consumidos. O propósito visa diminuir drasticamente os resíduos, recuperar os ecossistemas e rentabilizar os recursos e materiais. É dentro deste conceito que entram as energias limpas, ou fontes de energia renováveis.

Ou seja, a causa é nobre, primordial… e é por isso que o seu uso propagandístico é redutor e irresponsável!

Há hoje uma grande falta de noção e despudor quando se usa e abusa de um conceito – que é fundamental para a educação das próximas gerações -, sem que sejamos capazes de dar um bom exemplo nas atitudes e prioridades enquanto gestores.

É muito importante introduzir os valores ambientais, a defesa dos recursos naturais, a rentabilização das energias, de uma forma pedagógica, continuada, coerente e consistente. Vamos ser sérios e construir desde hoje – com mais atitudes e menos propaganda – hábitos, processos e normas que nos conduzam amanhã ao tal futuro mais sustentável.