A relevância do erro

Por Manuel Sousa Pereira

Vivemos na era do resultado perfeito, pois o erro é algo a ser escondido ou punido de imediato, no entanto, ao celebrarmos apenas o pódio, esquecemo-nos de uma verdade desconfortável: o sucesso sem tropeços é uma ficção. Ao punir a falha, a nossa sociedade não está a promover a excelência; está, paradoxalmente, a contribuir para a estagnação. Todavia, a principal relevância do erro está na descoberta: surge quando planeamos, arriscamos e, mesmo assim, falhamos porque o resultado escapa ao nosso controlo.

Para Karl Popper, a ciência avança através de conjeturas e refutações. Sob esta ótica, o erro deixa de ser uma falha no processo de conhecimento para se tornar o próprio motor do progresso científico. A história do pensamento já nos provou que a evolução não se faz em linha reta, mas sim através do método rigoroso da coleção de um ensaio constante. Já Carol Dweck autora do conceito de Mentalidade de Crescimento (Growth Mindset) refere que pessoas com mentalidade de crescimento veem o erro como uma oportunidade para desenvolver habilidades e competências.

Noutra perspetiva, Amy Edmondson refere o conceito de “Segurança Psicológica” (Psychological Safety). No seu livro mais recente, Right Kind of Wrong: The Science of Failing Well (2023), ela defende que para que haja inovação nas organizações, as pessoas precisam de se sentirem seguras, para errar sem medo da punição, sendo a ideia principal a de distinguir os “erros inteligentes” (aqueles que acontecem quando exploramos territórios novos) dos erros por negligência.

Assim, é necessário abrir espaço à simulação, ao erro controlado, ao ato de testar, desvendar, criar protótipos e experimentar, procurando ideias inovadoras e diferentes. Quando uma cultura, seja ela académica, científica ou corporativa, pune o erro, de forma cega, o instinto humano dita o óbvio: as pessoas deixam de arriscar, pois, onde não há espaço para a experimentação, instala-se uma estagnação. Precisamos normalizar o erro para podermos cultivar a ousadia e a criatividade. Só assim daremos espaço ao nascimento de um novo futuro.

Tentar e falhar é, acima de tudo, um processo de aprendizagem, crescimento e descoberta, na busca constante pelo novo. Afinal, uma comunidade madura não aplaude o desleixo; apoia, quem tropeça enquanto tenta fazer melhor.

Romper com a cultura da punição exige uma transformação profunda na forma como aprendemos, empreendemos e inovamos. Não se trata de condescendência, mas de institucionalizar a audácia, validar o ensaio, a simulação e o erro controlado como o único caminho para o progresso. Em suma, precisamos de aprender, desaprender e reaprender para moldar o futuro.