Por Hélder Araújo Neto (Psicólogo Clínico)
Já escrevi neste espaço sobre as adições. Desta vez, escrevo sobre uma em particular: o jogo. O que espoletou a escrita deste artigo, foi uma notícia do jornal “O Público”, contada pela namorada de um jovem, de 27 anos, que se suicidou por causa de uma dívida de cerca de quarenta mil euros, causada pela sua adição ao jogo. Escrevo também, porque tenho vários pacientes com a mesma adição, todos com menos do que 27 anos e, recentemente, encaminhei um deles para internamento numa comunidade terapêutica, devido ao grau de severidade da sua adição.
Num café, numa paragem de autocarro, ou, até, no sofá de casa, antes de dormir, bastam alguns segundos para aceder a um casino “online” ou comprar uma raspadinha num qualquer quiosque. O jogo, outrora associado a casinos físicos e a momentos ocasionais, passou a estar permanentemente disponível no bolso de milhões de pessoas através do telemóvel. E, com essa facilidade, cresce também uma preocupação cada vez mais séria: a adição ao jogo.
Do ponto de vista psicológico, o vício do jogo funciona de forma muito semelhante a outras dependências, como o álcool ou as drogas. O cérebro humano reage intensamente à expectativa de recompensa. Quando alguém aposta e ganha, mesmo que seja uma pequena quantia, ocorre uma libertação de dopamina – neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. O problema é que o cérebro começa rapidamente a associar o jogo à sensação de recompensa, criando um ciclo difícil de quebrar.
O perigo não está apenas no ganho mas, sobretudo, na incerteza. É precisamente o facto de o prémio poder surgir “a qualquer momento” que mantém o jogador preso ao comportamento. Tal como um pescador que continua a lançar a rede ao mar porque acredita que o próximo lançamento poderá trazer o grande peixe, o jogador continua a apostar convencido de que a próxima tentativa compensará todas as perdas anteriores.
No caso das raspadinhas e do jogo “online”, esta dinâmica torna-se ainda mais intensa. As raspadinhas oferecem resultados imediatos e criam uma ilusão de controlo. Já os jogos “online” combinam velocidade, estímulos visuais, sons apelativos e acesso permanente. Não existem horários de encerramento, nem necessidade de deslocação física. O casino está sempre aberto.
O isolamento social, o tédio, a ansiedade e o aumento do tempo passado em frente aos ecrãs contribuíram para uma subida significativa do consumo de jogos de apostas “online”. Muitos utilizadores começaram por curiosidade, ou entretenimento, mas acabaram presos num ciclo de perdas, tentativas de recuperação financeira e frustração emocional.
Os jovens surgem entre os grupos mais vulneráveis. Cresceram num ambiente digital, habituados à rapidez e à gratificação instantânea. Além disso, muitos ainda não desenvolveram totalmente mecanismos de autocontrolo emocional e financeiro. A sensação de invulnerabilidade típica da juventude pode levar à ideia de que “é fácil parar” ou de que “o próximo jogo vai compensar”. No caso das raspadinhas, a faixa etária é mais elevada, mas os mecanismos de recompensa são similares, e é igualmente preocupante.
A publicidade ao jogo “online” desempenha aqui um papel decisivo. Hoje, as plataformas de apostas aparecem associadas ao futebol, a influenciadores digitais e a campanhas publicitárias sofisticadas. Os anúncios apresentam frequentemente o jogo como uma forma simples de diversão, sucesso e até estatuto social. Mostram vencedores sorridentes, ambientes luxuosos e a promessa implícita de dinheiro fácil.
Esta normalização do jogo contribui para diminuir a perceção do risco, sobretudo entre os mais novos. Quando um adolescente vê constantemente anúncios de apostas, durante transmissões desportivas ou nas redes sociais, começa a encarar essa prática como algo banal, quase tão comum como subscrever uma plataforma de “streaming”.
Há ainda outro fator preocupante: os algoritmos digitais. Muitas plataformas utilizam notificações, bónus e promoções personalizadas para manter os utilizadores ativos. A lógica é semelhante à das redes sociais: captar atenção e prolongar o tempo de utilização. O jogador recebe mensagens com ofertas “limitadas”, apostas grátis ou recompensas especiais, criando um sentimento constante de urgência.
As consequências psicológicas podem ser devastadoras; ansiedade, depressão, insónias, isolamento social e problemas financeiros são apenas algumas das consequências mais frequentes. Testemunho todos esses sintomas nos meus pacientes adictos ao jogo. Em casos extremos, o vício do jogo pode destruir relações familiares, carreiras profissionais e a estabilidade emocional de uma pessoa.
Especialistas defendem, por isso, a necessidade de maior regulação da publicidade ao jogo “online”, sobretudo nos conteúdos dirigidos aos jovens. Embora isso, por si só não chegue, porque existem muitos sites de jogo ilegais, que passariam à margem dessa regulação. Neste sentido, deve ser feita prevenção primária. Sublinho a importância da educação emocional e da literacia financeira, desde cedo, ajudando crianças e adolescentes a compreender os riscos associados às apostas.
Porque, no fundo, o jogo raramente vende apenas uma aposta. Vende esperança. E quando a esperança se transforma numa necessidade compulsiva, deixa de ser entretenimento para se tornar uma prisão invisível.
Para terminar, aposto (esta palavra não é inocente) que houve muita gente que perdeu dinheiro, nos primeiros jogos do Brasil, de Espanha e, também, de Portugal, deste mundial de futebol, qua ainda agora começou.




