Falta de professores alastra a escolas de todo o país

A escassez de professores nas escolas portuguesas deixou de ser um problema localizado e passou a assumir uma dimensão nacional, afetando estabelecimentos de ensino em todas as regiões do país. A conclusão é da Missão Escola Pública, que divulgou o balanço do primeiro período letivo, com base num inquérito a diretores de 222 escolas e agrupamentos, cerca de 27% do total nacional.

De acordo com os dados recolhidos, a maioria das escolas enfrentou falta de professores durante mais de uma semana no primeiro período, enquanto 41% registaram horários sem docente atribuído durante pelo menos um mês. Em 34% dos agrupamentos inquiridos houve, pelo menos, um horário vazio ao longo de todo o primeiro período de aulas.

Embora o problema continue a ser mais intenso no sul do país, o estudo revela que a carência de docentes já se encontra “em franca disseminação territorial”. No centro, 36% dos agrupamentos reportaram dificuldades, valor próximo do registado na região de Lisboa, com 40,6%. No Algarve, metade dos responsáveis escolares apontou falta de professores, enquanto no Alentejo a percentagem foi de 28,6%. No Norte, 22,1% dos agrupamentos indicaram ter tido disciplinas sem professor durante todo o período.

A maior dificuldade sentida pelas escolas prende-se com a falta de docentes do 1.º ciclo, situação apontada por 31% dos diretores, seguindo-se Educação Especial (25%), Português (22%), Informática (20%), Inglês (11%) e Matemática (10%), entre outras disciplinas.

O inquérito revela ainda que 32% dos agrupamentos tiveram pelo menos uma turma que chegou ao final do primeiro período sem professor atribuído a uma ou mais disciplinas. Para minimizar o impacto nos alunos, a maioria dos diretores recorreu à atribuição de horas extraordinárias aos docentes (62,2%) e à reorganização ou completamento de horários (50,5%). Cerca de um quarto das escolas reduziu medidas de promoção do sucesso educativo, como apoios e coadjuvações.

A Missão Escola Pública alerta, contudo, para as consequências destas soluções a médio e longo prazo, sublinhando que o recurso excessivo a horas extraordinárias contribui para o desgaste dos professores. Segundo o inquérito, 82% dos agrupamentos têm pelo menos um docente a trabalhar mais horas, existindo casos em que mais de 50 professores acumulam horas extraordinárias.

A situação é particularmente preocupante no 1.º ciclo, onde algumas escolas recorreram à distribuição de alunos por outras turmas ou à utilização de técnicos especializados. O movimento de professores alerta que estas práticas podem comprometer o processo de aprendizagem e a progressão escolar, uma vez que esses técnicos não têm habilitação para avaliar os alunos.

Também esta semana, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, tinha alertado para o alastrar do problema, reforçando a ideia de que a falta de professores se tornou um dos principais desafios do sistema educativo português.

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