Opinião de Hélder Araújo Neto
(Psicólogo Clínico)
Sei que é preciso topete para escrever acerca do amor, esse “contentamento descontente” como escreveu Camões, mas atrevo-me a fazê-lo porque é um assunto apaixonante (adjetivo escolhido não por acaso).
Poucos temas atravessam culturas, séculos e geografias com tanta força como o amor. Presente em poemas antigos, canções populares, teorias filosóficas e investigações científicas, o amor é, simultaneamente, o mais universal e o mais pessoal dos sentimentos. Mas será o amor sempre o mesmo? E como o distinguimos da paixão que nos consome em chamas rápidas?
O amor é polifónico. Não se limita à experiência romântica que tantas vezes domina o imaginário popular. Na Grécia Antiga já se distinguiam vários tipos de amor: éros (amor erótico), philía (amizade), storgē (amor familiar), agápē (amor incondicional). Esta diversidade continua atual.
O amor romântico, talvez o mais celebrado no cinema e na literatura, combina afeto profundo com desejo de intimidade. Costuma evoluir com o tempo: começa muitas vezes com paixão ardente, um estado intenso, idealizado, quase obsessivo, e pode transformar-se em algo mais calmo e duradouro. Já o amor erótico (éros) está ancorado no desejo físico e sensual. É a linguagem dos corpos, da atração, da química sexual. Muitas relações românticas integram esta dimensão, embora nem todos os amores eróticos se convertam em relações afetivas profundas.
Há também o amor fraterno, aquele que une irmãos e amigos de alma. É o amor da presença silenciosa, da lealdade, da partilha de memórias. É menos efusivo, talvez, mas não menos essencial. A amizade verdadeira é uma forma de amor que, embora frequentemente desvalorizada, pode ser tão poderosa quanto qualquer romance.
O amor incondicional, como o que muitos pais sentem pelos filhos, é aquele que se oferece sem esperar retorno. É o amor que cuida, que aceita, que resiste às falhas e aos desvios. Também aqui se pode incluir o amor altruísta, por estranhos ou por causas, um sentimento que nos impele a agir pelo bem do outro.
À primeira vista, amor e paixão parecem sinónimos. Mas sob o microscópio da neurociência, revelam-se experiências bastante distintas. A paixão ativa zonas cerebrais ligadas à recompensa, como o núcleo accumbens e o sistema dopaminérgico, os mesmos que se ativam perante drogas aditivas. A paixão é eufórica, impulsiva, volátil. Ela liberta grandes quantidades de dopamina e norepinefrina, o que nos faz sentir eufóricos e obsessivos.
O amor duradouro, por outro lado, envolve mais a oxitocina e a vasopressina, hormonas associadas à vinculação, à confiança e à estabilidade emocional. Estas substâncias ajudam a explicar por que razão o amor maduro é mais calmo e menos dramático, mas também mais profundo e resiliente.
Podemos pensar na paixão como uma fogueira acesa com álcool: intensa, luminosa, mas de curta duração. Já o amor é um fogo alimentado com lenha seca, precisa de cuidado e paciência, mas pode aquecer uma vida inteira.
No final, talvez o mais importante seja reconhecer que o amor não se reduz a uma única definição. Ele pode ser desejo, cuidado, amizade, entrega. Pode ser breve ou eterno. Mas em qualquer das suas formas, continua a ser aquilo que mais nos humaniza.












