ONG defendem gestão conjunta do lobo ibérico entre Portugal e Espanha

Três organizações dedicadas à conservação da natureza apelaram aos governos de Portugal e Espanha para criarem uma estrutura permanente de gestão conjunta do lobo ibérico, alertando que a atual diferença de regimes de proteção está a comprometer os esforços de recuperação da espécie na Península Ibérica.

Num comunicado conjunto, a Rewilding Portugal, o Fondo para la Protección del Lobo Ibérico e a Green Impact ETS defendem uma estratégia transfronteiriça inspirada no modelo de conservação do Lince-ibérico, considerado um dos maiores casos de sucesso da proteção da natureza na Europa.

As organizações recordam que o Lobo-ibérico constitui uma única população biológica que ocupa territórios de ambos os lados da fronteira. Contudo, enquanto em Portugal beneficia de proteção rigorosa ao abrigo da legislação nacional, em Espanha pode voltar a ser abatido, na sequência da alteração do regime de proteção adotado em março de 2025.

Portugal mantém proteção reforçada

A mudança resulta da revisão da União Europeia à Diretiva Habitats, que reduziu o nível de proteção jurídica do lobo, passando de “estritamente protegido” para “protegido”, deixando aos Estados-membros a possibilidade de definir regras mais restritivas.

Apesar dessa alteração, Portugal optou por manter o regime de proteção criado em 1988, anterior à própria diretiva europeia, reafirmando o compromisso com a conservação da espécie.

Para as organizações ambientalistas, esta decisão representa um sinal positivo, mas será insuficiente sem uma estratégia coordenada com Espanha.

População continua em perigo

De acordo com o mais recente Censo Nacional do Lobo Ibérico 2019-2021, divulgado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, existem atualmente entre 250 e 300 lobos distribuídos por 58 alcateias, concentradas sobretudo a norte do rio Douro.

O levantamento concluiu ainda que a área ocupada pela espécie diminuiu cerca de 20% nas últimas duas décadas, representando atualmente apenas cerca de 30% da sua distribuição histórica em território nacional.

O lobo mantém a classificação de “Em Perigo” na Lista Vermelha portuguesa, enfrentando ameaças como o furtivismo, os atropelamentos, a fragmentação do habitat e os conflitos com a atividade pecuária.

Um estudo científico publicado na revista Biological Conservation concluiu que quase metade (47%) das mortes de lobos monitorizados com coleiras GPS no noroeste de Portugal, entre 2007 e 2017, resultaram de furtivismo.

Fronteira não protege os animais

As organizações sublinham que muitos lobos das alcateias do norte de Portugal utilizam regularmente território espanhol.

Citando um estudo publicado na revista Biodiversity and Conservation, recordam que entre 2008 e 2013 foram abatidos legalmente 623 lobos em Espanha, enquanto em Portugal não foi autorizado qualquer abate durante o mesmo período.

Na perspetiva das ONG, esta realidade significa que parte do investimento português na recuperação da espécie pode ser comprometido quando os animais atravessam a fronteira.

Estratégia comum para toda a Península

As três organizações defendem a criação de uma estrutura permanente de coordenação entre o ICNF e o Ministério espanhol da Transição Ecológica, responsável por desenvolver uma estratégia comum para toda a população ibérica.

Entre as medidas propostas encontram-se um recenseamento anual conjunto, programas partilhados de monitorização científica, reforço da utilização de fundos europeus, ações coordenadas de prevenção de ataques ao gado e mecanismos comuns de conservação.

As ONG defendem ainda a implementação integral do Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Governo português, que prevê um investimento de 15 milhões de euros ao longo de dez anos, incluindo verbas destinadas ao reforço das compensações aos produtores, à proteção dos rebanhos e ao combate ao furtivismo.

Na opinião das organizações, apenas uma gestão coordenada entre Portugal e Espanha permitirá assegurar a recuperação sustentável do lobo ibérico, uma espécie que, lembram, “não conhece fronteiras administrativas”.

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