Opinião. A Verdade já não é o que era

Opinião de Hélder Araújo Neto

Vivemos numa era em que a verdade não é apenas dita ou omitida, ela é curada, filtrada e, por vezes, distorcida por linhas invisíveis de código. Os algoritmos das redes sociais, projetados para maximizar a nossa atenção, operam como tecelões silenciosos: escolhem, entre milhões de fios de informação, aqueles que mais nos prendem o olhar, e assim vão bordando o tecido da nossa percepção do mundo.

Arthur Schopenhauer, no seu livro A Arte de Ter Sempre Razão, que li recentemente, distingue a lógica, que busca a verdade objetiva, da dialética erística, que busca apenas vencer uma discussão, independentemente da verdade. Nas redes sociais, a lógica é uma rara convidada; a dialética, ao contrário, reina soberana. Não se trata de quem tem razão, mas de quem consegue manter-nos a deslizar o dedo no ecrã, a fazer “scroll”.

O mecanismo é simples e implacável: o algoritmo percebe quais conteúdos nos causam mais reação emocional, seja indignação, riso ou medo, e alimenta-nos com mais do mesmo. Assim, constrói-se uma câmara de eco em que opiniões semelhantes reforçam-se mutuamente, enquanto vozes dissonantes são afastadas. A “verdade” que vemos não é o reflexo fiel da realidade, mas um espelho curvado, moldado pelo perfil que traçaram de nós.

Do ponto de vista psicológico, isso ativa o chamado viés de confirmação: tendemos a aceitar informações que confirmam as nossas crenças e a rejeitar as que as desafiam. Quando essa tendência natural é amplificada por um sistema que nos serve conteúdos sob medida, corremos o risco de viver numa espécie de “sonho digital”, confortável, coerente, mas potencialmente ilusório.

A metáfora do tecelão ajuda-nos a visualizar esse processo. Imagine um artesão que, todos os dias, escolhe os fios com que vai tecer a manta que cobre os nossos olhos. Ele conhece o nosso gosto, sabe quais são as cores que nos agradam e quais as que nos irritam. O seu objetivo não é criar uma manta que mostre o mundo tal como é, mas uma que nos mantenha debaixo dela o maior tempo possível. E, quanto mais tempo passamos envolvidos no calor dessa manta, mais esquecemos que lá fora há um tecido maior e mais complexo, e talvez menos confortável, do que o que vemos.

Schopenhauer alertava que, na dialética, o objetivo não é a verdade, mas a vitória. Nas redes, essa “vitória” é medida em cliques, partilhas e minutos de permanência. O perigo é que, à medida que confundimos vitória com verdade, podemos perder a capacidade de reconhecer que nem todas as ideias mais populares são as mais corretas.

Se quisermos romper a manta e ver o mundo como ele é, precisamos cultivar um olhar lógico, e não apenas dialético. Isso exige esforço: procurar ativamente pontos de vista diferentes, verificar fontes, desconfiar do que confirma demasiado as nossas certezas. É um trabalho contra a corrente, mas talvez seja o único caminho para que a verdade, em vez de ser tecida por algoritmos, possa voltar a ser procurada por nós mesmos. Convido o leitor a fazer o exercício de perceber se tem vindo a ser manipulado, se tem tido uma manta a tapar-lhe a visão, e nem sempre é o algoritmo que nos manipula, um exemplo disso é aquele moço que tem um nome de um personagem da Disney, que governa um país do outro lado do atlântico, que, quando a verdade não lhe convém, ele repete “Ad nauseam“, “fake news, fake news”.

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