Texto de opinião de Hélder Araújo Neto
Psicólogo Clínico
O artigo deste mês é, ligeiramente, diferente, relativamente aos anteriores. Quis deixar aqui três metáforas. As metáforas são importantes na terapia por facilitarem a comunicação de conceitos abstratos, ajudam os pacientes a expressar sentimentos complexos de forma menos ameaçadora e a reestruturarem pensamentos rígidos. Elas criam um espaço para a reflexão, promovem a desfusão cognitiva (distanciamento de pensamentos negativos), e auxiliam na conexão com valores pessoais, e na busca por soluções, tornando a experiência terapêutica mais acessível. Portanto, eis as minhas (três) metáforas preferidas, e as que uso mais em terapia. Sobre medo, perda e renascimento.
Às vezes, é preciso perder o que nos dá segurança para descobrir o que nos dá sentido. Vivemos num tempo em que a estabilidade é quase uma religião. Procuramos garantias, rotina, previsibilidade, mesmo que o preço seja o sonho adiado. Mas a vida, com a sua ironia sábia, encontra formas discretas (e por vezes dolorosas) de nos empurrar para fora do conforto.
Deixo, então, aqui três histórias antigas, a da “vaquinha” (prefiro contar esta versão mais moderna, porque a original, chinesa, envolve atirar uma vaquinha por um precipício, não gosto dessa versão “coitada da vaquinha!”), a do pote rachado e a do elefante preso. Espero que este texto ajude a lembrar-nos de que, o que parece uma perda, pode ser o início de uma libertação.
A primeira: “A vaquinha e o medo de arriscar”. Carlos trabalhava há mais de dez anos na mesma empresa. O salário era modesto, o ambiente pesado, mas o emprego era estável. “Na situação em que o país está, é melhor não arriscar”, repetia a si mesmo. Sonhava em abrir o próprio negócio, mas faltava-lhe tempo, coragem e motivação. Um dia, essa motivação chegou disfarçada de despedimento. Foi despedido, a empresa faliu. Sem chão, Carlos começou a vender bolos feitos em casa, apenas para sobreviver. Mas o improviso tornou-se vocação: aprendeu “Marketing”, criou uma página nas redes sociais, e o pequeno projeto transformou-se num negócio próspero. “Ser despedido foi o melhor que me podia ter acontecido”, diz hoje. Enquanto tinha a sua vaquinha, sobrevivia. Quando a perdeu, começou a viver.
A “vaquinha” é o símbolo do conforto que nos sustenta, mas limita-nos: um emprego, uma relação, um hábito, uma crença. Perdê-la dói, mas também liberta.
A segunda: “O pote rachado e a beleza da imperfeição”. Numa aldeia da Índia, um aguadeiro transportava dois potes pendurados numa vara. Um era perfeito. O outro, rachado, deixava metade da água pelo caminho. Sentindo-se culpado, o pote rachado pediu desculpa. O aguadeiro respondeu: “Olha para o caminho, vês as flores que crescem só do teu lado? Eu sabia da tua rachadura e plantei sementes. Foi a tua imperfeição que fez o caminho florescer.” Também nós carregamos rachaduras: falhas, dores, limites. Mas é por elas que passa a nossa humanidade. São as fendas que nos tornam permeáveis à beleza, à empatia e à transformação. A perfeição raramente ensina; é a imperfeição que rega o caminho.
A terceira: “Num circo, um homem viu um enorme elefante preso por uma simples corda. Intrigado, perguntou ao tratador: “Como é possível que não fuja?”. “Quando era bebé”, explicou o tratador, “foi amarrado à mesma estaca. Tentou libertar-se, mas era fraco. Desistiu. Desde então, acredita que não pode.”
O animal cresceu, mas continuou prisioneiro de uma recordação, não da corda. Tal como ele, muitos de nós permanecemos presos a crenças antigas, medos herdados, vozes que já não têm razão de ser. A força que ontem faltava hoje já habita em nós, só precisamos acreditar o suficiente para dar o primeiro puxão.
As três histórias convergem num mesmo ponto: para viver de forma plena, é preciso largar o medo, aceitar a imperfeição e reconhecer a própria força. A vida não nos tira nada por crueldade. Tira-nos apenas o que já não nos serve.
Quando a vaquinha se vai, quando a rachadura se revela, quando a corda aperta, talvez seja apenas o universo a convidar-nos a crescer.
Porque viver, afinal, é isso: ter a coragem de deixar ir o que é pequeno, para descobrir o tamanho que realmente temos.












