Opinião de Hélder Araújo Neto
Psicólogo Clínico
A inspiração para escrever este artigo veio de uma publicação numa qualquer rede social, sobre a adoção de um cão pelo ator Ryan Gosling.
Escolheu o mais velho, o resignado, o que já não se expunha, com “abananços” de rabo e latidos, para se mostrar, estava lá sossegadinho a aceitar o seu destino, e foi precisamente esse que ele escolheu; o “George”. O velhinho ficou famoso: foi às entregas de prémios, exibições e promoções de filmes (sempre com o Ryan).
Os animais são poderosos. A “Inca”, uma labradora, foi minha terapeuta e ajudou-me a ultrapassar o medo e o trauma que tinha com cães com o seu amor bruto e com a paixão pelo mar que ambos tínhamos. Mais recentemente, a “Mia” e o “Tadeo”, gatos excecionais, enchem-nos a casa de amor. Foram escolhidos precisamente por serem pouco apetecíveis para adoção: são gatos doentes, não são jovens e exigentes.
A presença de um cão, de um gato, de um pássaro ou até de um peixe pode parecer simples, mas revela-se um recurso poderoso para o bem-estar psicológico, em todas as fases da vida.
Na infância, os animais funcionam como confidentes silenciosos e parceiros de brincadeira. Uma criança que cresce ao lado de um cão, por exemplo, aprende cedo o valor da empatia, da responsabilidade e da rotina. O ato de cuidar, dar comida, escovar o pêlo ou brincar diariamente, reforça competências sociais e emocionais. Estudos de psicologia do desenvolvimento mostram que estas experiências promovem autoestima e senso de pertença. Para muitas crianças, tímidas ou ansiosas, um animal pode ser o primeiro “amigo incondicional”, ajudando a vencer barreiras sociais e a reduzir sentimentos de solidão.
Na adolescência, fase marcada por turbulências emocionais e busca de identidade, os animais assumem outro papel: o de espelho afetivo. Um gato que se deita tranquilamente no quarto, ou um cão que espera pacientemente pelo regresso do tutor, da escola, oferece um tipo de aceitação que raramente se encontra no mundo exterior. A psicologia clínica observa que jovens com animais de estimação tendem a relatar níveis mais baixos de stress e maior estabilidade emocional. Há algo de terapêutico na ideia de chegar a casa, após um dia difícil, e ser recebido com entusiasmo por quem não julga, não critica e não exige explicações.
Na vida adulta, os animais funcionam como reguladores emocionais. Em contextos de rotina acelerada, pressão laboral e exigências familiares, ter um animal é um convite à pausa. O cão que precisa de passear lembra o adulto sobre a importância de respirar fundo e observar o mundo lá fora. O gato que salta para o colo, durante uma tarde de trabalho remoto, força a desaceleração e oferece um momento de ternura. Do ponto de vista psicológico, estes pequenos gestos reduzem a ativação fisiológica, ligada ao stress, e podem contribuir para prevenir a ansiedade e a depressão. Não é por acaso que muitas terapias assistidas com animais têm mostrado resultados promissores em contextos clínicos.
Na velhice, a presença de um animal pode assumir um carácter ainda mais profundo. O envelhecimento, frequentemente associado a perdas de entes queridos, de autonomia, de papéis sociais, encontra no animal um remédio contra o vazio. Para muitos, um cão ou um gato torna-se companhia diária, fonte de afeto e até de estímulo à atividade física. A psicologia do envelhecimento destaca que a interação com animais contribui para reduzir sentimentos de isolamento e manter o sentido de propósito. Alimentar, trocar a água, ou simplesmente conversar com o animal são práticas que alimentam – tanto a rotina, quanto a alma.
Importa, contudo, não romantizar em excesso. Ter um animal implica responsabilidade e pode trazer desafios, como custos financeiros, exigência de tempo e até lutos dolorosos. Porém, o balanço emocional, geralmente, é fortemente positivo. Os animais ensinam-nos uma linguagem sem palavras, feita de olhares, gestos e presenças. Eles lembram-nos que o afeto não precisa de ser complicado para ser profundo.
Utilizando uma metáfora: se a vida fosse um rio, talvez os animais de estimação fossem como pequenas embarcações que nos acompanham em diferentes fases. Na infância, são barcos de brincar. Na adolescência, boias de salvação. Na idade adulta, remos que nos lembram do ritmo.












