Opinião de Hélder Araújo Neto (Psicólogo Clínico)
Há quem diga que o mundo está a piorar, que as pessoas estão mais estúpidas, mais cruéis, mais egoístas, mais grunhos (num sentido mais literal, relacionado com o javali, e outro mais figurado, relacionado ao comportamento humano). Mas, talvez essa, não seja a verdade completa. O que talvez estejamos a ver, com olhos atentos e sensíveis, é o embate entre dois estágios da evolução humana: o tribalismo bruto que nos protegeu no passado, e a empatia consciente que nos pode salvar no futuro.
Imagine a Humanidade como um comboio em marcha. Alguns ainda viajam no última carruagem, feita de pedra lascada, medo e instinto. Outros já avançaram para os primeiros compartimentos, onde há janelas abertas, luz, partilha de comida, e escuta. Todos estamos no mesmo comboio, mas nem todos estamos no mesmo ponto da viagem.
Chamemos “idiotas” àqueles que rejeitam a complexidade, que se agarram ao preconceito como a um talismã. Chamemos “cruéis” aos que ridicularizam a fragilidade, os que preferem a força bruta à delicadeza. Não por mera ofensa, mas porque essas atitudes são, na verdade, resíduos arcaicos.
A agressividade, o medo do diferente, a desconfiança de estranhos, tudo isso tem valor evolutivo. Nos tempos em que a sobrevivência dependia de reconhecer rapidamente uma ameaça, a mente tribal era uma arma. Um olhar diferente, um sotaque estranho, uma pele de cor diversa, qualquer detalhe podia ser lido como sendo perigoso. A coesão do grupo dependia da exclusão do outro. Era eficaz. Era útil. E era, muitas vezes, cruel. Mas o que é eficaz nem sempre é ético. O que é útil em tempos de escuridão pode tornar-se venenoso sob a luz do pensamento.
Com o tempo, e com muito sofrimento, fomos desenvolvendo algo novo: a capacidade de sentir o outro como extensão de nós mesmos. A empatia não é apenas uma virtude moral; é uma conquista neurobiológica. O cérebro humano moderno já não é só um detetor de ameaças. É também uma ponte emocional. Hoje, sabemos que a compaixão ativa áreas específicas do cérebro, como o córtex pré-frontal e o sistema límbico. A libertação de oxitocina, a chamada “hormona do amor”, e de serotonina, estabiliza emoções, fortalece vínculos e promove comportamentos pró-sociais. A empatia é, literalmente, química evoluída. Ser gentil é ser mais sofisticado. Ser empático é dispor de mais circuitos neuronais, mais conexões, mais humanidade.
Durante séculos, confundiu-se bondade com fraqueza. Mas o que é mais fácil? Gritar, bater, rejeitar? Ou respirar fundo, escutar, acolher? A empatia exige esforço. É uma força em contramão. Os que ainda vivem nas sombras do instinto não suportam a luz da consciência alheia. Ridicularizam os que choram, os que sentem, os que acolhem. Chamam-lhes “fracos”. Mas, na verdade, são os únicos verdadeiramente livres, livres de si mesmos, livres da prisão dos reflexos primitivos.
Pense na Humanidade como um grande jardim. Algumas pessoas ainda rastejam na lama, roendo raízes amargas. Outras, com paciência e consciência, aprenderam a plantar, a cuidar, a colher flores. A crueldade é erva daninha: cresce facilmente, de forma rápida, e sufoca tudo à volta. A empatia, por sua vez, é uma flor rara. Precisa de sol, de água, de tempo, mas quando floresce, transforma o solo à sua volta.
Não podemos expulsar os que utilizam a violência, os mentecaptos, os que ainda vivem no instinto, nem ridicularizá-los; isso seria repetir o ciclo. Mas, podemos insistir. Mostrar que há outras carruagens. Que o futuro não está no grito, mas na escuta. Não no domínio, antes na partilha. Não na força, sim na ternura firme. Compreendo que às vezes apeteça dizer “CHEGA de idiotas”, mas temos de perseverar.
A Humanidade está a mover-se. Alguns de nós já sabem que ser bom não é ser ingénuo. É ser corajoso o suficiente para evoluir. E como toda a verdadeira evolução, o himanismo, a empatia, começa no cérebro, floresce no coração e, finalmente, transforma o Mundo.












