Opinião de Hélder Araújo Neto (Psicólogo Clínico)
Inspirei-me para este artigo, ao ver os utentes de pilates, na clínica onde dou consultas, a RTerapias, a saírem todos sorridentes da aula. O corpo em movimento e a mente em equilíbrio, o exercício físico é como um ginásio psicológico. Se imaginarmos a mente como o mar, é fácil reconhecer dias de calmaria e outros de agitação intensa. Pensamentos acelerados, emoções à flor da pele, ‘stress’ acumulado. O exercício físico surge, muitas vezes, como um farol nesse mar: não elimina as ondas, mas ajuda-nos a navegar com mais segurança. Cada movimento do corpo é também um ajuste subtil da mente, um diálogo silencioso entre músculos, emoções e pensamentos.
Durante décadas, o exercício foi visto sobretudo como um meio para melhorar a condição física, controlar o peso ou prevenir doenças. Hoje, a psicologia reconhece-o como uma ferramenta poderosa de regulação emocional, promoção do bem-estar e fortalecimento da saúde mental. Mexer o corpo é, em muitos aspetos, mexer na forma como pensamos e sentimos.
Do ponto de vista psicológico, a atividade física atua em várias frentes. Em primeiro lugar, há um efeito biológico direto: durante o exercício, o cérebro liberta neurotransmissores como a serotonina, a dopamina e as endorfinas, frequentemente associadas as sensações de prazer, motivação e redução da dor. Este “cocktail químico” ajuda a diminuir sintomas de ansiedade e depressão, funcionando como um antidepressivo natural, ainda que não substitua, quando necessário, acompanhamento clínico.
Mas o impacto do exercício vai muito além da química cerebral. Existe também uma dimensão profundamente simbólica e psicológica no ato de nos movimentarmos. Quando alguém estabelece uma rotina de exercício, está a reforçar uma sensação de controlo e de autoeficácia: “sou capaz de cuidar de mim”, “consigo manter um compromisso comigo próprio”. Em contextos de ‘stress’, ‘burnout’ ou baixa autoestima, esta perceção pode ser transformadora.
É aqui que práticas como o Pilates ganham especial relevância. Ao contrário de exercícios mais orientados para a “performance” ou competição, o Pilates convida à atenção plena, à consciência corporal e à respiração. Cada movimento exige foco, precisão e presença. Não se trata de “fazer mais”, mas de “fazer melhor”. Psicologicamente, isto traduz-se numa pausa no ruído mental, numa oportunidade de sair do piloto automático.
O Pilates ensina-nos algo essencial: o corpo guarda histórias. Tensões acumuladas, posturas defensivas, rigidez que não é apenas muscular, mas emocional. Ao trabalhar o centro do corpo, o chamado core, trabalha-se também o centro simbólico do equilíbrio e da estabilidade. Para muitas pessoas, esta prática torna-se um espaço seguro onde é possível escutar o corpo sem julgamento, reconhecendo limites em vez de os forçar.
Voltando à metáfora do mar, o exercício físico não é um botão que desliga as tempestades internas. É mais parecido com aprender a ajustar as velas. Há dias em que uma caminhada tranquila é suficiente; noutros, uma aula intensa ajuda a libertar tensão acumulada. O Pilates, nesse sentido, funciona como uma âncora: não impede o movimento, mas oferece estabilidade.
Outro aspeto psicológico relevante é o caráter relacional do exercício. Mesmo quando praticado individualmente, ele liga-nos a algo maior, a uma rotina, a um espaço, a um grupo. A sensação de pertença, seja numa aula de Pilates, num ginásio ou num parque, contribui para reduzir o isolamento, um dos grandes fatores de risco para problemas de saúde mental na sociedade contemporânea.
Importa também sublinhar que a relação com o exercício deve ser saudável. Quando se transforma numa obrigação rígida ou numa forma de punição do corpo, perde o seu potencial terapêutico. A psicologia lembra-nos que o verdadeiro benefício surge quando o movimento é vivido como cuidado, não como castigo.
Num mundo acelerado, onde a mente raramente descansa, o exercício físico oferece-nos um espaço de reconexão. Um lugar onde corpo e mente deixam de ser entidades separadas e passam a trabalhar em conjunto. Como um farol em noites de nevoeiro, o movimento não resolve todos os problemas, mas ilumina o caminho, passo a passo, respiração a respiração. Portanto, caro leitor, pelas razões evocadas, considere começar a praticar algum tipo de exercício ou continue, se já o faz.












