Opinião. Os Livros

Opinião de Hélder Araújo Neto (Psicólogo Clínico)

Num tempo marcado pela aceleração constante, pelo excesso de estímulos e por uma ansiedade quase normalizada, os livros continuam a ser um dos últimos lugares onde o silêncio ainda pensa. Não é um silêncio vazio, mas um silêncio fértil, aquele em que a mente respira, reorganiza-se e encontra sentido. Ler não é apenas um ato cultural; é, cada vez mais, um gesto de saúde mental.

Os livros funcionam como uma espécie de abrigo interior. Tal como uma casa antiga resiste às intempéries do tempo, também a leitura oferece refúgio quando o ruído exterior se torna insuportável. Abrir um livro é fechar, por instantes, a porta ao mundo imediato para entrar num espaço onde a complexidade humana pode ser observada sem julgamentos apressados. Nesse sentido, os livros são menos uma fuga e mais um regresso: regressamos a nós próprios.

A ciência tem vindo a confirmar aquilo que os leitores sempre souberam intuitivamente. A leitura regular reduz o ‘stress’, melhora a concentração, estimula a empatia e ajuda a organizar emoções difusas. Mas talvez seja a literatura, e não apenas a leitura utilitária, que mais profundamente atua sobre a saúde mental. A literatura não oferece soluções rápidas; oferece perguntas duráveis. E é nesse confronto com as perguntas essenciais que a mente se fortalece.

Basta pensar na obra de Gabriel García Márquez. Em Cem Anos de Solidão, o real e o fantástico coexistem, como coexistem na nossa própria psique, memória e imaginação, trauma e desejo. Ao acompanhar a saga dos Buendía, o leitor percebe que a solidão não é apenas uma condição individual, mas também coletiva e histórica. Ler Márquez é compreender que muitas das nossas angústias pessoais são ecos de narrativas maiores, familiares, sociais e humanas.

Já Milan Kundera convida-nos a uma reflexão diferente, mas igualmente terapêutica. Em A Insustentável Leveza do Ser, a fragilidade das escolhas, o peso (ou a ausência dele) das decisões e a ambiguidade moral dos afetos são explorados com uma lucidez quase desconcertante. Kundera lembra-nos que a dúvida não é um defeito da mente, mas uma condição da liberdade. Para quem vive angustiado pela necessidade de certezas absolutas, esta é uma lição profundamente libertadora.

No entanto, quando se fala da literatura como espelho da saúde mental e da alma humana, é impossível não deter o olhar em Fiódor Dostoiévski. Poucos escritores penetraram tão fundo nos labirintos da consciência como ele. Dostoiévski não escreve apenas histórias; ele disseca estados de espírito. Em Crime e Castigo, acompanhamos o delírio moral de Raskólnikov, a sua racionalização da culpa, o peso psicológico do crime e a lenta erosão da sanidade. Não há simplificações, não há heróis limpos, há seres humanos em conflito consigo próprios.

Em Os Irmãos Karamázov, esse mergulho torna-se ainda mais radical. Fé, dúvida, culpa, desejo, redenção: tudo convive num mesmo espaço narrativo, como convive dentro de cada leitor. Dostoiévski compreendeu algo essencial para a saúde mental contemporânea: o ser humano não é coerente, e exigir coerência absoluta de si próprio pode ser uma forma subtil de violência interior. Ler Dostoiévski é aprender a tolerar as próprias contradições.

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é um romance que explora o culto da beleza, a moralidade e as consequências psicológicas do hedonismo. Dorian, um jovem de aparência impecável, vê o seu retrato envelhecer e degradar-se em seu lugar, à medida que ele próprio permanece fisicamente intocado pelo tempo e pelos seus atos. A obra funciona como uma alegoria sobre a cisão entre aparência e consciência, mostrando como a recusa em enfrentar a culpa e a responsabilidade conduz à alienação interior e à autodestruição.

Deixo aqui só quatro exemplos dos meus autores preferidos, porque, como é óbvio este texto alongar-se-ia para além do possível, mas há tantos outros na minha lista: Paul Auster, Han Kang, Fernando Pessoa (com todos os seus heterónimos), Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Aldous Huxley, Camilo Pessanha, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Ezra Pound, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Charles Bukowski, Nicolai Gogol, Ernest Hemingway, Saramago, Alejandro Jodorowsky, como veem é uma lista bastante eclética, e existem dezenas de outros, que moldaram o meu pensamento, e arriscaria dizer, a minha personalidade. Mas é idiossincrático, cada um, com o seu gosto, escolherá quem lhe servir, quem fizer sentido, desde que leiam, e percebam, os benefícios que esse ato traz à saúde mental.

A metáfora impõe-se quase sozinha: os livros são como espelhos de água. Quem se aproxima apressadamente vê apenas a superfície; quem se detém, vê o reflexo, e quem ousa mergulhar encontra profundidades inesperadas. Esse mergulho nem sempre é confortável, mas é quase sempre transformador. Ao nomear emoções que não sabíamos articular, a literatura organiza o caos interno e oferece linguagem ao sofrimento, um passo fundamental para qualquer processo de cuidado mental.

Num mundo que insiste em respostas rápidas e soluções instantâneas, os livros lembram-nos do valor da lentidão, da introspeção e da complexidade. Não curam no sentido médico do termo, mas cuidam. E, por vezes, cuidar é exatamente o que a mente mais precisa.

Talvez por isso, apesar de todas as mudanças tecnológicas, os livros persistam. Porque enquanto houver seres humanos a tentar compreender-se, haverá páginas a serem abertas, como janelas, para que a mente possa, finalmente, respirar.

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